Estudante de Arquitetura e Urbanismo da UFSC desenvolve projeto de Centro de Ensino e Desenvolvimento do Autista

07/04/2017 12:32

O mês de abril é marcado pelo Dia Mundial da Conscientização do Autismo, que aconteceu no último domingo, dia dois. Considerando essa data importante, a Coordenadoria de Acessibilidade Educacional (CAE/SAAD) fez contato com a estudante de Arquitetura e Urbanismo da UFSC Manoela Fischer, de 24 anos, que apresentou recentemente o seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) sobre um Centro de Ensino e Desenvolvimento do Autista em Brusque. O projeto conquistou nota máxima e mostrou a importância de se trazer o assunto para discussão e para o meio acadêmico.

Fotografia colorida em ambiente fechado. Hall da reitoria. A estudante Manoela Fischer posa ao lado da prancha com o projeto arquitetônico do seu TCC, em que se lê, no topo, “Centro de Ensino e Desenvolvimento do Autista em Brusque-SC”.

Fotografia colorida em ambiente fechado. Hall da reitoria. A estudante Manoela Fischer posa ao lado da prancha com o projeto do seu TCC, em que se lê, no topo, “Centro de Ensino e Desenvolvimento do Autista em Brusque-SC”.

Manoela explica que a motivação para desenvolver a ideia veio de fatores como o convívio com a irmã, Ana Júlia, que recebeu o diagnóstico de autismo aos dez anos e hoje completa 17. Isso fez com que a jovem pudesse compreender melhor a necessidade de recursos acessíveis no ambiente escolar para pessoas com a deficiência. Além disso, percebeu a falta de preparo das instituições regulares para fazer o acolhimento de pessoas com o Transtorno do Espectro Autista (TEA) – não somente pela carência de ensino adaptado e direcionado, como também pela ausência de espaços que fossem pensados e projetados para receber essas pessoas adequadamente. Decidiu, portanto, utilizar a experiência na faculdade em Florianópolis para idealizar a proposta do Centro em Brusque, sua cidade natal e onde mora sua família.

O pai de Manoela também foi uma grande influência para que ela realizasse o projeto, pois foi um dos fundadores da Associação de Pais, Profissionais e Amigos dos Autistas de Brusque e Região (AMA Brusque). Hoje, devido à ausência de uma sede própria, são as escolas municipais e a Secretaria Municipal da Saúde que cedem espaços para que a Associação possa realizar suas atividades. “O meu projeto, apesar de não ser uma sede da AMA, vai servir como uma base para que eles consigam o apoio de empresas para irem atrás de um projeto próprio ou, talvez, adaptar o meu pra fazer sua sede”.

Em seu trabalho, a estudante destaca que a estrutura física e o método pedagógico das escolas regulares dificultam a concentração de crianças com autismo. Explica que elas se distraem e ficam agitadas mais facilmente em ambientes com muitos estímulos, como barulhos, excesso de cores e informações nas paredes das salas de aula. Pensando nisso, Manoela aponta uma frase que lhe serviu de incentivo para a realização do projeto: “Se eles não aprendem como nós ensinamos, vamos ensinar de um modo que eles aprendam” (dita por Ivaar Loovas, difusor e pesquisador do método ABA para ensinar pessoas com autismo). Para a jovem, ela poderia significar para além do sentido pedagógico – também para o arquitetônico: de que as escolas ideais seriam projetadas de modo que o ambiente influenciasse no aprendizado das pessoas com deficiência.

Manoela deixa claro que a acessibilidade é indispensável em todos os ambientes de ensino – tanto no seu Centro quanto nas escolas regulares. Nesse sentido, sua proposta envolve soluções em todos os aspectos da edificação, como na acústica, iluminação, ventilação, identidade visual, segurança, em prol da simplicidade e clareza e fazendo adaptações criativas de integração sensorial, também prezando pela durabilidade dos materiais e fácil manutenção, além de um layout bastante flexível para que seja possível trabalhar diferentes atividades em um mesmo ambiente.

O Centro de Ensino e Desenvolvimento do Autista em Brusque seria uma espécie de “complemento” (e não uma substituição) às escolas regulares. Seria importante para ajudar qualquer pessoa com TEA no treinamento de habilidades a serem trabalhadas para se alcançar níveis cada vez maiores de autonomia e sociabilidade. Essas atividades seriam essenciais na visão da idealizadora do projeto, pois, segundo ela, “quanto antes se começam esses trabalhos, melhor e mais rápido é o desenvolvimento da pessoa”.

Para desenvolver seu próprio projeto, Manoela estudou as AMA Florianópolis e Joinville, utilizando-as como inspiração para a parte pedagógica do seu Centro. Ademais, buscou inspiração em trabalhos como o Centro para o Autismo e o Cérebro em Desenvolvimento, feito por um escritório em Nova Iorque. Para ela, esta referência foi importante porque mostrou um ambiente aconchegante e familiar, semelhante ao que ela gostaria de projetar.

A professora doutora Thêmis Fagundes, orientadora do TCC, conta que participar de trabalhos desse tipo é uma experiência muito gratificante, e que os processos de troca e aprendizado foram intensos e instigantes. Além disso, explica que uma boa arquitetura inevitavelmente deverá refletir preocupação com a qualidade do espaço, “o que é uma característica de cunho eminentemente social, ou seja, uma preocupação com a vida humana neste espaço. Assim, toda arquitetura de qualidade deve ser inclusiva e garantir acessibilidade universal”.

 

Matéria: Amanda Antunes Bueno. Estagiária de Jornalismo da Coordenadoria de Acessibilidade Educacional.